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  • por Ivan Alfarth

A advocacia no futuro: como isso impactará no cliente


Como descrever a advocacia do século XX? O cliente relata o problema, o advogado entra com uma ação sem avaliar globalmente a questão, sem sopesar prós e contras – na dúvida, recorre-se à justiça. Dominavam (ainda dominam) os grandes escritórios que contratavam recém-formados a baixo custo para fazer ações repetitivas como as trabalhistas, revisões de contratos e danos morais, sempre fazendo a mesma coisa. Não é exagero dizer que essas formas de atuação contribuíram bastante para a má fama da classe dos advogados, tidos como enroladores e inescrupulosos.

A descrição acima é simplista, mas podemos destacar duas lições: no século passado – e mesmo atualmente – muitos advogados não faziam uma análise global do caso do cliente, forçando-o a sempre aceitar uma solução fechada – geralmente a via judicial, lenta e dolorosa na maior parte das vezes. E há os advogados que não se desafiam a pesquisar e preferem atuar em áreas cujas teses são as chamadas “receitas de bolo”: ações prontas, umas iguais às outras.

Porém, com o maior acesso à informação e o avanço da automatização no século XXI, profissionais que insistirem nesses modelos ficarão em situação complicada. Escritórios de visão limitada e “judicializadora” (para quem tudo tem que ser resolvido na justiça) serão forçosamente substituídos por advogados que atuam mais como gestores de conflitos, com visão mais ampla do problema e que apresentem várias formas de solução para seus clientes. E quanto aos processos repetitivos, já existem programas de inteligência artificial que emulam esse tipo de ação pronta, automatizando muitas etapas que outrora eram realizadas por advogados recém-formados contratados por grandes bancas de advocacia de massa (escritórios que lidam com milhares de ações). O advogado que executa funções repetitivas não terá espaço no mercado e será substituído, em breve, por algoritmos inteligentes.

A advocacia moderna exige, portanto, um profissional que atue de forma estratégica e com ampla visão. E o que mudará para o cliente? Primordialmente, o advogado será alguém mais próximo, apresentando ao cliente múltiplas soluções. Ações judiciais serão apenas uma das possibilidades - alternativas mais rápidas serão apresentadas-, uma advocacia preventiva e baseada na negociação será prioritária. O advogado moderno deverá ter uma carga cultural ampla, não bastando apenas possuir conhecimentos técnicos em Direito, mas também ter habilidades como empatia, criatividade, facilidade de comunicação e de relação entre as pessoas. Afinal, as máquinas ainda não aprenderam a ter empatia com o cliente. Ainda.

Uma forma interessante de separar um profissional moderno dos que não se atualizam é que estes últimos, diante do problema apresentado pelo cliente, se limitam a dizer “não faça isso” ou “pode fazer que não tem risco”. Mas a realidade quase nunca se apresenta de forma tão nítida, tão preto-no-branco. O advogado dos novos tempos analisará o caso do cliente e apresentará a ele vários cenários, pesando riscos e consequências, benefícios e custos. O Advogado não deve ser o “pai” do cliente, ele não deve proibir ou permitir sem ressalvas, mas sim aconselhar, e este aconselhamento significa dizer o que pode acontecer se o cliente agir de determinado modo.

Enfim, o “novo” advogado deverá estar mais próximo de seu cliente. E a tecnologia, que tanto é acusada de afastar as pessoas do convívio em comum, poderá ser um fator de aproximação: ao invés de perder o fator humano e se afastar do cliente com o uso do celular ou computador, o advogado moderno usará as ferramentas certas para tornar este contato mais próximo.


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© 2020 por Ivan Alfarth. 

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